ENTREVISTA – Escritora Amanda Braga fala sobre Beleza Negra em novo livro

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Do Portal Betioli, por Amanda Andrade   

Fugindo de ideias preconcebidas, o livro História da Beleza Negra no Brasil decifra as imposições e as interpretações sobre o corpo negro, em uma pesquisa detalhada e pautada na análise de fragmentos de jornais, pinturas, imagens e textos de revistas e peças publicitárias.

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Em entrevista ao Portal Betioli, a autora Amanda Braga, que também é Professora doutora de Linguística e Língua Portuguesa na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), contou como a sua tese “Retratos em Branco e Preto” virou livro e suas inspirações.

O que te inspirou a escrever sobre o assunto?

Amanda Braga – As políticas afirmativas, adotadas pelo Estado brasileiro a partir de 1996, são o ponto de partida de minha pesquisa sobre a beleza negra, foram elas (bem como tudo que delas adveio) que me inspiraram a escrever sobre o assunto. Anteriormente a 1996, havia no Brasil políticas de integração, que visavam integrar o público negro socialmente. As políticas afirmativas, não por acaso também chamadas de políticas de identidade, estão interessadas em afirmar a identidade negra a partir de uma ótica positiva, cenário a partir do qual vão surgir, por exemplo, os salões de beleza étnicos, os cosméticos desenvolvidos especificamente para a pele negra, uma mídia impressa dedicada exclusivamente ao público (como a Revista Raça Brasil), etc. São todas essas questões – que colocam o corpo, bem como a estética negra no centro de grandes discussões – que nos impelem, hoje, a escrever sobre uma história da beleza negra no Brasil.

O espaço social é mais acolhedor para o negro se expressar visualmente hoje em dia?

Amanda Braga – Acredito que sim. Para além das políticas afirmativas, as esferas da mídia e da moda, bem como os discursos que tematizam muito fortemente a questão da diversidade atualmente, vão trabalhar na massificação de alguns signos da estética negra: o turbante e o cabelo crespo em sua textura natural – usados não apenas por pessoas negras – são exemplos disso. O que acontece é uma absorção desses signos pelo mercado, abrindo a possibilidade de afirmar uma estética negra que se torna cada vez mais visível, mais massificada, mais usual.

No caso do Brasil, os resquícios de um sistema escravocrata ainda influenciam no comportamento da sociedade (seja do negro ou do branco)?

Amanda Braga – Sem dúvida. Se quisermos um exemplo, basta olhar com algum cuidado para os anúncios (ou para os rótulos) das cervejas cuja denominação faz referência a mulheres afro-brasileiras, como por exemplo a cerveja Cafuza, a cerveja Mulata, a Devassa Negra. Recentemente escrevi um artigo sobre isso. Sempre me impressionou o modo como o corpo da mulher negra (mulata, cafuza) aparece ali enredado por um discurso que parte da imagem da escrava doméstica ou da escrava sexual e alcança, hoje, sua exacerbação, principalmente se pensamos na (con)fusão instaurada entre os nomes das cervejas e as mulheres estampadas em seus rótulos: Quem é a cafuza, a mulata ou a devassa: as mulheres ou as cervejas? Quais os produtos oferecidos à venda? Quais os produtos a serem consumidos? Naturalmente, como é de fácil percepção, o modo como os atuais anúncios de cerveja fazem uso do corpo da mulher em seu material publicitário, fazendo-os confundir com o produto oferecido para consumo, é corrente. Mas as memórias que aqui são atualizadas dizem respeito, especificamente, à esfera racial de alguns desses anúncios, o que acaba por trazer à tona a memória de um sistema escravocrata, ou, mais particularmente, como dito anteriormente, a memória da escrava doméstica e da escrava sexual, a mercê dos sentidos pretendidos pela publicidade.

Apesar de ser parte da formação da cultura brasileira, muitos elementos da cultura negra são vistos com certo preconceito. Como se originou essa marginalização?

Amanda Braga – Mais uma vez, vou te responder com um exemplo, já que esses signos possuem histórias diferentes, o que me impede de generalizá-las. Vejamos: no interior das sociedades africanas ocidentais, os penteados africanos eram sinônimo de linguagem, na medida em que eram usados para indicar a idade, a religião, o estado civil daquelas que o portavam. Não por acaso, os negros passavam por uma raspagem dos cabelos quando trazidos ao Brasil. Certos da necessidade de distanciar os negros escravizados de sua origem cultural, essa raspagem, salvaguardada sob o argumento de necessidades higiênicas, tinha o intuito de minar qualquer sentimento de pertencimento étnico que aqueles povos pudessem carregar a partir da relação com o cabelo. A tradição africana no que diz respeito ao cabelo não se perde, no entanto, com o tráfico, mas renasce. Nesse “renascimento”, ou seja, nessa mudança que ocorre no que diz respeito ao trato com o cabelo da África ao Brasil, outros fatores, não considerados anteriormente, passam a ser determinantes no momento da manipulação. Será decisivo aqui o fato do cabelo, bem como o tom de pele, terem sido usados enquanto critérios para estabelecer a classificação do escravizado no interior do sistema, determinando suas atribuições. O que havia era uma seleção eugênica, nas quais a superioridade estava posta, como se pode supor, nas representações estéticas inspiradas no modelo europeu. Essa seleção criaria não apenas a preferência por um tipo de cabelo que já não era crespo, mas cacheado, como também a prática – o desejo – de alisar os cabelos. Talvez aqui possamos flagrar, senão a “origem” de um dado preconceito em relação ao cabelo crespo em sua textura natural, mas um “acontecimento” que seria conservado pela nossa memória cultural, ainda que hoje esse discurso esteja sendo, como salientei em respostas anteriores, ressignificado, massificado, consumido, globalizado.

Apesar de rica, ainda encontramos dificuldades em encontrar traços da cultura negra em novelas ou pessoas negras em peças publicitárias. Por quê?

Amanda Braga – Sobre as novelas, é complicado falar, já que não acompanho de perto. No que se refere à publicidade, essa dificuldade é encontrada muito fortemente até a década de 90, momento em que, ainda que o negro aparecesse em um anúncio ou outro, era de modo racista que aparecia. Lembro, a propósito, de um anúncio da Parmalat que dizia: Chegou o café Parmalat. O café à altura do nosso leite. No anúncio, um casal formado por um homem negro e uma mulher branca. Atualmente, ainda que não seja possível generalizar, o cenário é diferente. E é diferente não apenas porque o controle sobre esses anúncios é feito de forma mais eficiente, mas também porque o próprio público tem atuado como agente fiscalizador desses discursos (as tecnologias da comunicação associadas à força dos movimentos sociais têm cumprido esse papel). É esse cenário que vai permitir o aparecimento, por exemplo, de coleções inteiras inspiradas na estética negra. Marcas como a Melissa e a Farm já produziram catálogos dedicados exclusivamente inspirados na moda, na cultura, nas cores africanas. São questões ligadas a uma dada globalização da cultura africana, que deixam de ser consumidas apenas por pessoas negras e passam a ser consumidas em escala global. Naturalmente, não quero dizer, com isto, que já não há empecilhos para a presença de pessoas negras nas novelas, na mídia, na moda, na publicidade. Quero dizer que há, hoje, uma tentativa de ressignificação das memórias que temos de nossas relações raciais, abrindo aí uma via de valorização. É um processo que ainda está acontecendo, mas que já apresenta avanços significativos.

TítuloHistória da beleza negra no Brasil: discursos, corpos e práticas

Autora: Amanda Braga

Número de páginas: 273

Formato: 14 x 21 cm

Preço: R$ 39,00

ISBN: 978-85-7600-393-9

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