Exposição “O Papagaio de Humboldt” será inaugurada na OCA do Ibirapuera no dia 5 de agosto

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Ao entrar nas salas expositivas, o visitante primeiro ouve um murmúrio inespecífico e polifônico, composto por várias vozes e por um tapete sonoro, que faz lembrar um ambiente sacro; depois se aproxima de cada um dos alto-falantes e ouve distintamente o som de cada língua ameríndia, dentre centenas de idiomas em risco de extinção ou em situação crítica. Painéis individuais apresentam textos com o conteúdo das falas e o desenvolvimento histórico de cada uma das línguas ali representadas, no universo dos idiomas falados pelos povos das Américas.

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Essa grande instalação sonora compõe a mostra “O Papagaio de Humboldt”, que será inaugurada no dia 5 de agosto, no último andar da Oca no Parque Ibirapuera. Idealizada pelo Instituto Goethe, com patrocínio da Oi Futuro e curadoria de Alfons Hug, a mostra resgata não apenas um precioso patrimônio linguístico, mas também uma forma de ver e viver o mundo, uma genuína visão de mundo e do ambiente, uma leitura do universo que não mais se conseguirá acessar.

“O Papagaio de Humboldt” se inspira no mito do papagaio que o explorador e naturalista alemão Alexander von Humboldt adquiriu da tribo indígena caribe, em plena selva do Orinoco, em uma das inúmeras viagens que o levaram a países como Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Cuba e México, entre 1799 e 1804. Humboldt percebeu que o papagaio não falava a língua da tribo que visitava, mas a língua da tribo exterminada, os maipuré. Na verdade, o papagaio era o único falante vivo dessa língua que levava o mesmo nome da tribo extinta. Vale lembrar que Humboldt está um pouco presente na literatura brasileira por causa do papagaio do Macunaíma – aquele papagaio que fala no fim do livro, o único que conhece a língua da tribo.

Se no Brasil são faladas mais de 160 línguas, em alguns países da América Central elas se resumem a um punhado.  Calcula-se que 85% das línguas que estavam vivas no ano de 1500 já tenham sido extintas.

A população indígena da América Latina soma 28 milhões de pessoas – 6% da população total. Em todos os vinte países, com exceção de Cuba, Haiti e República Dominicana, são faladas mais de 600 línguas ameríndias, o que corresponde a 10% dos idiomas falados em todo o mundo. Um terço delas está ameaçado de extinção e outro terço já se encontra em situação crítica. Enquanto os idiomas quechua (Peru, Equador, Bolívia), guarani (Paraguai), aimará (Bolívia, Chile, Peru) e náuatl  (México), contam, cada um, com milhões de falantes, outros, como o arara (Brasil), bribri (Costa Rica),  pipil  (El Salvador) ou chorote  (Argentina) somam  menos de mil falantes.

O idioma yámana da Terra do Fogo hoje é falado por apenas uma pessoa, Cristina Calderón, nascida por volta de 1938, em Puerto Williams (Chile). O artista chileno Rainer Krause entrevistou esta senhora no intuito de preservar, ao menos, um vocabulário básico deste idioma. Diante de situação tão dramática, é bastante animador observar que um novo indigenismo  está surgindo em diversos países do continente; as formas de vida tradicional vêm sendo discutidas com seriedade – e não apenas na Bolívia, Equador ou Venezuela, mas também no Brasil e mesmo na Argentina.

No Brasil, recentemente, foram demarcadas centenas de reservas indígenas, chamadas de “terras indígenas”. Na Bolívia, os direitos da natureza foram incluídos na Constituição, expressando o “sumak kawsay”, que significa na língua quéchua “buen vivir”, o bom viver, outambém “vida pura e em harmonia”. Trata-se de uma forma de vida que possibilita a convivência harmoniosa com os outros seres humanos e também com a natureza.

“O Papagaio de Humboldt” busca colocar as pessoas em contato com a realidade das línguas ameríndias e, ao mesmo tempo, apresentar as formas de renascimento que vêm acontecendo nesse terreno. O fato da exposição restringir-se exclusivamente ao som exige concentração intensa do visitante, que pode prescindir dos elementos visuais à medida que se dispõe a mergulhar profundamente no cosmo das línguas raras. Foram escolhidos artistas que têm afinidade com o patrimônio linguístico indígena. Na seleção das línguas, foi determinante não apenas a importância histórica e cultural de uma língua e de uma etnia, mas também o grau de ameaça de extinção e seu apelo estético. Além disto, é admirável que todos os artistas participem de uma obra coletiva onde não existe hegemonia ou hierarquia.

Lista de artistas

Brasil: Adriana Barreto, Paulo Nazareth – Uruguai: Gustavo Tabares – Argentina: Sofia Medici & Laura Kalauz – Chile: Rainer Krause – Bolívia: Sonia Falcone & José Laura Yapita – Peru: José Huamán Turpo – Venezuela: Muu Blanco – Paraguai: Javier López/Erika Meza – Alemanha: Ellen Slegers– Equador: Fabiano Kueva – Guatemala: Sandra Monterroso – Costa Rica: Priscilla Monge – Nicarágua: Raul Quintanilla – Panamá: Orgun Wagua

EXPOSIÇÃO “O PAPAGAIO DE HUMBOLDT”

Curadoria: Alfons Hug

Local: Oca – Parque Ibirapuera (São Paulo)

Endereço: Av. Pedro Álvares Cabral – Portão 3 | Telefone: (11) 5082 1777

Inauguração: 4 de agosto de 2015(para convidados)

Período de exibição: 5 de julho a 4 de outubo de 2015

Horário: de terça a domingo, das 9h às 17h

Entrada gratuita

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